Tolkien, Jackson & Eu

Ontem assisti a The Hobbit: The Desolation of Smaug (nem sei como traduziram… “desolação”?) no cinema, e hoje quero escrever um pouco dos meus pensamentos sobre o filme. Mas, com isso, também quero falar um pouco da minha relação um pouco… frustrante com os livros de J.R.R. Tolkien e os filmes de Peter Jackson. Apesar de ser um apreciador de grande parte da cultura nerd dos séculos XX e XXI, um elemento bem importante dela sempre me deixou um tanto alienado. Estou falando de The Lord of the Rings, ou O Senhor dos Anéis… E toda a obra de J.R.R. Tolkien, por sinal. Eu normalmente aprecio mais histórias de ficção científica do que de fantasia, e isso tem um grande papel nisso, mas acho que há outros motivos por trás disso.

The Hobbit: The Desolation of Smaug

Eu só fui ler The Hobbit este ano em 2013 e nunca li a já mencionada trilogia. Os filmes eu assisti, a trilogia há alguns anos e ambos os Hobbits no cinema. Não posso negar que os filmes da trilogia de Peter Jackson são ótimos em diversos sentidos, mas eu tenho dificuldade em dizer que gosto de assisti-los. Pode ser por causa da duração deles — cerca de três horas cada — que me faz não levar a decisão de assisti-los novamente com leveza, mas lembro que mesmo pouco tempo depois de assistir aos três filmes já não lembrava muito do que tinha acontecido. Lembro da história geral, é claro, mas muitos detalhes e sequências de eventos me escapam. Isso, eu acredito, é um problema comum em filmes baseados em livros. Eu às vezes procuro ler os livros antes de assistir aos filmes, mas quando isso não é possível percebo que é mais difícil absorver toda a história apenas pelo filme. Normalmente adaptações para o cinema têm que ser brutalmente esquartejadas para poderem caber em apenas duas horas. Peter Jackson, é claro, não se conteve com esse limite tradicional e estendeu os filmes ao máximo que a Warner Bros. permitiu. Mesmo assim, três horas é pouco comparado aos dias ou semanas que normalmente levo para ler um livro, e isso torna a absorção de detalhes mais difícil — e realmente, não se transmite tanto ao espectador a sensação de uma longa aventura que durou meses. De qualquer maneira, apesar de apreciar imensamente o trabalho feito com os visuais e sons para tornar os filmes tão mágicos quanto os livros, não são experiências que eu sinto vontade de revisitar frequentemente.

Com The Hobbit, é um pouco diferente. Eu fui lê-lo após assistir a An Unexpected Journey e ganhar o livro de aniversário. Apesar de sempre ser descrito como um livro leve e rápido de ler, não foi um livro que “devorei”. Apesar da história ser de fato simples e suas trezentas e poucas páginas não serem muito imponentes, o livro mostrou que não sirvo para ser fã da escrita de Tolkien: Sua obsessão com detalhes e seus parágrafos gigantescos tornam a leitura demorada e cansativa para mim — o que me faz acreditar que não vou ler sua famosa trilogia tão cedo. Não me entenda mal, o livro é ótimo e teve uma importância crucial para o desenvolvimento da ficção do século XX, mas, assim como os filmes, não é algo que eu sinto vontade de revisitar.

De qualquer maneira, ter lido o livro me deixou mais animado com os trailers de The Desolation of Smaug, e esperava apreciar melhor os detalhes do segundo filme da série. E… Até que apreciei. Tenho que dizer que superou minhas expectativas que, depois do que havia lido na Internet, estavam no fundo de um poço posteriormente preenchido por fezes de animais quaisquer. Para um filme tão longo, até que a experiência de assisti-lo não é tão torturante quanto podia ser. Acontecem mais coisas nele do que aconteceram no primeiro, mas continua passando a sensação de ser um prólogo (bem) longo para a próxima instalação da série. Mas, enfim, é provavelmente o filme mais fraco baseado numa obra de Tolkien até agora.

Apesar de agora ter um total de quase nove horas para representar visualmente um livro curto, o diretor Peter Jackson ainda foi seletivo sobre quais cenas e personagens detalhar e quais simplificar ou remover. Por outro lado, Jackson tirou muitas coisas de anotações ou outras histórias de Tolkien, assim como criou novos elementos com a roteirista Fran Walsh. Dessa forma, personagens como Gandalf e Bard ganharam mais destaque em tela do que haviam recebido no papel: o primeiro subiu da posição de ancião conselheiro para a de mago badass chutador de bundas de orcs e o segundo recebeu uma ênfase notável em seus motivos para ser o revolucionário da vez. No entanto Bilbo Baggins, o tal hobbit ao qual o título do filme se refere, pareceu bem secundário com suas cerca de quatro falas no filme. Inclusive, acho que é o personagem titular com o menor tempo em tela em qualquer filme que já vi. Nas poucas vezes em que ele aparece, ou a vontade de Martin Freeman ou as ordens de Peter Jackson fizeram o personagem amadurecer rápido demais. Cedo no filme (aparentemente por causa dos acontecimentos do anterior), Bilbo já se mostra corajoso, quebrando completamente a moral do livro. A coragem de Bilbo deveria ser algo gradual e a grande recompensa da jornada.

No título do filme também há um outro personagem: Smaug. Nos trailers vimos apenas breves imagens do dragão, mas não de sua forma completa. Ver o design final do bicho foi no mínimo decepcionante, mas não tirou meus olhos do problema maior: os efeitos especiais. Na área visual, o filme continua excelente com maquiagem, fantasias e cenários deslumbrantes. Mas tudo que foi gerado por computadores me tirava do espetáculo, Smaug sendo um exemplo. Não bastasse isso, o diretor não economizou em cenas assim. Praticamente todas os long shots eram completamente CG e, com a alta taxa de quadros na qual o filme foi distribuído, ficava bem claro que os visuais não eram lá muito melhores do que os de um vídeo game. Foi justamente o uso limitado de CG que fazem os filmes da trilogia anterior serem tão visualmente impressionantes até hoje, e mesmo com dez anos de tecnologia depois este foi um aspecto que decepcionou nos dois Hobbits.

Outra coisa que me incomodou é que, apesar de The Hobbit ser originalmente uma história infantil (que é longe de ser um problema por si só), muito esforço foi posto em torná-lo “adulto”. No primeiro filme isso era bem visível com os trolls, que pareceram um alívio cômico fora de propósito, e desta vez mesmo batalhas violentas e sangrentas PG-13 não foram suficientes para esconder a essencial simplicidade da história — que não deveria ter sido escondida em primeiro lugar.

O filme ainda tem outros problemas, como a trilha sonora (que é boa mas quase toda reciclada dos filmes anteriores) e o excesso de elfos, mas em geral é agradável de assistir. É mais rápido e com mais ação que o anterior, mas continua com os mesmos problemas e adiciona mais alguns. Assista por sua própria conta e risco.

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2 thoughts on “Tolkien, Jackson & Eu

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