A Internet e e o Aprendizado

Semana passada, na última aula de Inteligência Artificial do semestre, a professora resolveu fazer algo diferente. Falamos de ética em AI, usando como base contos escritos por Isaac Asimov. Asimov, é claro, foi um grande pioneiro da ficção científica no começo do século passado que acabou influenciando muitos conceitos de robótica e AI tanto na ficção quanto na realidade. Eu li um conto chamado The Fun They Had — é curtinho, leia aí se puder. Ler este conto, escrito pelo menos meio século atrás, foi no mínimo curioso. Ele trata de dois aspectos da tecnologia atual que estão fazendo papéis grandes na minha vida: livros eletrônicos e a sabedoria ilimitada da Internet.

O conto começa  “com o bonde andando” e Margie escrevendo sobre como Tommy encontrou um livro de verdade. Sim, um livro de papel e tinta, como ela nunca havia visto antes. Eram coisas de histórias — afinal, quem em sã consciência usaria tanto papel para algo que só pode ser usado uma vez? Como diz Tommy na história, “Nossa TV já deve ter tido um milhão de livros e ainda está boa para muitos mais”. Ler isto é especialmente interessante agora que realmente é possível carregar milhares de livros num compacto dispositivo cuja tela se transforma para nos mostrar qualquer texto que queiramos ler. Eu, é claro, sou um grande fã dessa tecnologia e às vezes me sinto exatamente como esses personagens. Mas esse é um tópico para outro post.

Meu tópico principal vem da segunda ideia apresentada no conto. O livro encontrado por Tommy e Margie fala sobre a escola. Não uma escola normal, mas uma escola com um professor. Um professor humano, que obviamente não podia saber tanto sobre tantas coisas quanto um robô especialmente criado para ensinar uma criança em aulas particulares. A ideia da professora, e acredito que também a de Asimov, era pensar sobre como escola é um importante aspecto da nossa sociedade e crescimento como comunidade e indivíduos. Sobre como um robô pessoal pode ser eficaz numa visão puramente de aprendizado, mas provavelmente nem tanto para desenvolvimento como pessoas. Mas eu acabei pensando em como esse robô pessoal e com um vasto conhecimento sobre qualquer assunto específico já existe — e nós o chamamos de Internet.

Eu quero falar um pouco sobre como nossa relação com aprendizado mudou nos últimos anos, especialmente com o surgimento e a popularização da nossa melhor amiga, a Internet. Para quem é estudante hoje em dia, é quase inimaginável que, há não muito tempo, as principais fontes de conhecimento para pesquisas eram livros e enciclopédias. Livros e enciclopédias que, devido à natureza do papel, frequentemente estavam desatualizados imediatamente após serem publicados. Hoje, nós temos algo muito próximo à coleção completa da sabedoria humana atualizada em tempo real e… O que fazemos com isso?

Vemos e publicamos fotos de gatos fazendo coisas engraçadas.

Admin Cat

Gatos são apenas um exemplo, é claro. Não é preciso uma pesquisa aprofundada para perceber que a vasta maioria do conteúdo no YouTube não vai melhorar em nada o conhecimento de uma pessoa sobre um determinado assunto. Isso não é necessariamente ruim — é possível ter vídeos que são realmente apenas para entretenimento e diversão — mas muitos nem para isso servem. Mas mesmo assim nós frequentemente os assistimos. Não me entenda errado — eu amo a Internet e maior parte do que vem associada com ela. Mas eu acredito ser extremamente curioso que agimos desta forma.

No conto de Asimov, a mãe de Margie a obriga a ter aulas todo dia no mesmo horário — para manter um ritmo e uma rotina — com um robô que pode ser ajustado dependendo do rendimento da criança. Mas já não é possível ter uma experiência semelhante? Se você conseguir se manter disciplinado, é perfeitamente possível passar menos tempo vendo gatos, ouvindo Miley Cyrus no YouTube, conversando sobre besteiras aleatórias no Facebook, ou escrevendo num blog que quase ninguém vai ler e passar mais tempo estudando física quântica ou obtendo algum conhecimento que pode algum dia salvar uma vida. Os recursos estão aí, e não é difícil de achá-los.

E ao mesmo tempo, a Internet muda notavelmente a forma em que devemos aprender coisas numa escola “normal”. Há poucas décadas, aulas de geografia e de história eram marcadas pela memorização de nomes de capitais e anos de eventos. Hoje, esse tipo de conhecimento tornou-se quase inútil — afinal, eu posso descobrir o nome da capital do Zimbábue em cinco segundos se eu quiser… Me dê um instante. Acabei de descobrir que é Harare. E de quebra descobri que fica perto do sul da África, que foi uma colônia do Reino Unido, e que os idiomas oficiais são inglês, shona e ndebele (não faço ideia também, mas aposto que posso descobrir). Esse conceito se aplica igualmente a quase qualquer tipo de conhecimento puramente factual. Quando aconteceu este evento? Onde nasceu este ator? Qual é a melhor maneira de preparar um sanduíche? Esses são apenas exemplos de perguntas que inevitavelmente alguém já perguntou e outra pessoa já respondeu.

Então qual é o objetivo de estudar? O que nós podemos fazer com nossos cérebros orgânicos que demoram tanto tempo para calcular uma integral mas conseguem ver soluções para problemas que levariam anos ou décadas para serem calculadas num computador? Se eu soubesse, provavelmente estaria fazendo algo mais útil com a minha vida. Ou não.

E você, o que acha da nossa relação com aprendizado desde que surgiu a Internet?

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4 thoughts on “A Internet e e o Aprendizado

  1. Ótima contribuição para os professores. Confesso que tenho dificuldade para orentar os alunos para o bom uso da internet. O ensino tradicional ainda esta presente nas escolas brasileiras. Um beijo!

  2. Importantíssima a forma como coloca a internet. Trata-se de mais uma ferramenta para a complexa rede de aprendizado constante que é nosso cérebro. Aprendemos desde o ventre até o último suspiro. O conhecimento é formado pelo conjunto de experiências e a escola tradicional ou com o uso de robôs e internet vão se somando. Porém, mesmo com um simples papel, um lápis, uma borracha e ,um professor dedicado somos capazes de desenvolver e capacitar nosso cérebro para cumprirmos da melhor maneira possível nosso papel na sociedade. Parabéns pelo belo artigo!

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