Alienígena Compatriota

O Brasil é um país grande. Enorme, eu diria. Portanto, não é de se surpreender que tantas partes do país sejam alienígenas para grande parte da população brasileira. Hoje, estou percebendo mais do que nunca antes o quão pouco eu sabia sobre uma parte em particular do Brasil, a Amazônia e seus povos nativos.

Quando eu cheguei a Claremont em agosto, rapidamente percebi que haviam pouquíssimos brasileiros aqui — conheci apenas dois durante os dias para orientação aos alunos internacionais — e aceitei que eu não falaria muito português durante este ano. Contudo, algumas semanas depois recebi um e-mail de Lêda Martins, uma professora brasileira em Pitzer College, convidando a mim e outros brasileiros em Claremont a participarem da mesa de português em Oldenborg, um refeitório exclusivo para conversas em idiomas estrangeiros, às sextas-feiras.

Numa dessas sextas-feiras, a Lêda perguntou se algum de nós poderia acompanhar uma outra aluna (que não fala português) até o Los Angeles International Airport para receber um artista brasileiro (que não fala inglês) que estaria chegando de Roraima. Claro, disse eu após ser subornado com promessas de pão-de-queijo e Guaraná Antártica, ficarei feliz em ajudar. Então, numa tarde (ou manhã?) de setembro (ou outubro? maldita memória) eu acompanhei Jessica num Honda Odyssey até o distante aeroporto de Los Angeles, contando-a um pouco sobre o Brasil e minhas experiências nos EUA até então.

Foi em algum momento desse dia que me informaram o nome do nosso convidado, Jaider Esbell. Para melhor reconhecê-lo na área de desembarque, resolvi procurar o nome no bom e velho Facebook. Então descobri que o tal do Jaider não era apenas um artista brasileiro, mas um artista indígena brasileiro. Não que isso fosse um problema por si, mas nesse momento eu abandonei a ideia de fazer um novo amigo. Afinal, o que um piá (do ‘‘curitibanês’’: garoto) de prédio amante de tecnologia como eu teria em comum com um artista indígena da Amazônia quinze anos mais velho para dialogarmos?

Após estacionar o Odyssey, uma breve aventura para encontrar o local certo para aguardá-lo (você acha os aeroportos de São Paulo grandes? Hah) e uma longa espera, finalmente o Jaider emerge entre uns franceses e coreanos. Facilmente reconhecido pelos tubos que continham suas obras e que tanto o atrasaram na alfândega, o artista pareceu muito menos exótico para mim sem a pintura presente em sua foto de perfil no Facebook. Jaider estava cansado, é claro, mas dialogamos um pouco sobre nossos motivos de estarmos em solo americano e planos para o futuro próximo. Alguns dias depois, conversei mais com o Jaider na mesa de português e então encontrei com ele pelo campus mais uma ou outra vez, aprendendo sobre ele, falando sobre mim e… Me tornando um amigo.

Em novembro fui com duas colegas até Pitzer encontrar o Jaider para ver sua exposição, Cattle in the Amazon. Como o nome diz, a coleção trata da pecuária na Amazônia e como esta afetou e continua afetando a forma de viver dos povos indígenas. Eu já havia ouvido falar dessa questão — sobre quantos quilômetros quadrados da floresta são desmatados diariamente para tornarem-se pasto — mas pela primeira vez tive contato com um membro da sociedade diretamente afetada por isso. Achei a forma em que o Jaider retrata a questão em suas obras, que normalmente conectam pintura com poesia, interessantíssima; e ninguém como o próprio artista para explicar sobre uma obra de arte. Então comecei a refletir sobre ter este contato com uma cultura — uma cultura tão puramente brasileira — nos Estados Unidos da América.

Renan & Jaider

Jaider e eu com duas de suas obras

Hoje houve em Pitzer uma palestra chamada Contemporary Amazon Art, com a Lêda, o Jaider e dois outros professores. Foi apresentado um vídeo sobre A Árvore de Todos os Saberes, uma obra iniciada pelo Jaider que contém espaços para serem completados por outros artistas indígenas do Brasil e do mundo. Durante a seção de perguntas, expressei apenas o quanto esta oportunidade e experiência foi para mim, deixando claro em português e em inglês como eu estava aprendendo sobre a Amazônia tanto quanto maior parte dos americanos no auditório. Na saída, conheci a professora de português em Pitzer, que ficou feliz em saber que havia pelo menos um brasileiro na audiência, e conversei com algumas pessoas que já conhecia, novamente expressando o quanto essa experiência foi interessante.

Acredito que o ponto crucial é que se eu tivesse visto um cartaz num corredor da Universidade Federal do Paraná dizendo que um artista indígena da Amazônia daria uma palestra e faria uma exposição, não teria nem cogitado comparecer; e se eu comparecesse, definitivamente não teria conhecido o artista e as obras tão bem. Aqui, tão longe de casa, a minha vontade de conhecer mais brasileiros e o que me resta de patriotismo me convenceram que sim, eu deveria prestigiar meu compatriota, por mais distante que Roraima seja do Paraná. Agora, estou satisfeito que o fiz pois pude convidar o Jaider para jantar, não como alguém tão diferente e desconhecido, mas como meu novo amigo.

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3 thoughts on “Alienígena Compatriota

  1. Amei ler seu depoimento “Alienígena Compatriota”! Achei muito interessante a maneira como você abordou a questão – conhecer um pouco da nossa Amazônia, mas estando em outro país. .Mostra também como valorizamos tão pouco o que é nosso! Felicidades para você, e aproveite bem a experiência com a oportunidade de intercâmbio e com a amizade com o Jaider! Abraços
    Elizabeth Alpendre

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